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Leticia Brito - Rio de Janeiro - Brasil
Leticia Brito - Rio de Janeiro - Brasil


Licença para matar nas favelas

Licença para matar nas favelas



Luiz Antonio Machado da Silva e Luis Carlos Fridman*

A população favelada da cidade do Rio de Janeiro vive sob vários fogos, nem todos disparados por armas. Um deles, que já vem de longa data, é a difusão da mentalidade de que os moradores dessas áreas são potencialmente perigosos, mesmo que a manutenção de suas vidas exija extraordinários esforços (pacíficos!), certamente superiores àqueles que dispendemos. Como os riscos, sustos e terrores se disseminaram em toda a cidade, conseqüência do aumento do narcotráfico e dos insucessos governamentais, e como o comércio da droga se concentra nas favelas (até porque o traçado viário delas facilita a vigilância e a fuga dos criminosos), os favelados tornaram-se alvo permanente da ação policial e do preconceito.

Sob o aguilhão do medo e da raiva, progressivamente a distinção entre o favelado e o bandido é abandonada e a própria noção de legalidade vai perdendo o sentido. Em resumo, a população favelada tornou-se "matável" por agentes de segurança, sob o beneplácito de responsáveis pelas instituições e do olhar insensível daqueles que se sentem "aliviados" pela "pressão máxima" exercida sobre os territórios onde prolifera a ação dos bandos beneficiários da economia da droga. Joaquim Ferreira dos Santos, do Globo, escreveu na edição de 12 de março que a política da "pressão máxima" já está sendo conhecida como "opressão máxima".

Compactuar com o narcotráfico está fora de questão, mas o mesmo precisa ser sublinhado com relação à suspensão de garantias mínimas de vida e de manifestação para a população favelada. A não ser que acreditemos que a vida de certos grupos sociais não importa lá muita coisa ("afinal de contas, são todos farinha do mesmo saco, para que ficar filosofando sobre inocência, lei, essas coisas?").

A população favelada vive entre muitos fogos, e desta vez estamos falando dos tiros disparados pelos bandos armados e pela ação policial. Parte da "ordem" nas favelas é supervisionada pelos criminosos, que detêm poder de vida e de morte sobre seus moradores. Sob o tacão dos bandidos, não existe qualquer rudimento de lei ou de institucionalidade garantidora de direitos. É uma dominação cruel, cujo limite metafórico é o "microondas", que ficou conhecido desde o assassinato do jornalista Tim Lopes, mas há muito vem matando importantes lideranças comunitárias. A dominação "microondas" vai muito além do padrão de opressão que usualmente os cidadãos estão sujeitos, em suas formas econômicas, políticas, jurídicas e sociais. Óbvio: isto justifica a violência policial e encobre as grandes e pequenas corrupções.

O favelado é humilhado cotidianamente pelo narcotráfico, pela ação policial atrabiliária e violenta e pelo preconceito dos que não moram nas favelas. É este mesmo tripé que vai tornando quase impossível o prosseguimento da organização da ação coletiva dos favelados, a luta orgânica e politicamente orientada por seus direitos - sua presença, tão duramente conquistada, como ator relevante na cena pública. Nessas condições é ingenuidade, cegueira ou má intenção buscar o "comportamento ótimo" ou o "padrão civilizado" cada vez que moradores chamam a atenção, como podem, para a injustiça da violência física e moral cotidiana, que se vem acrescentar à secular precariedade socioeconômica. A revolta explode. Ações de massa, espontâneas, desorganizadas e sem objetivos muito definidos sempre provocam pânico e rejeição da população comum, realimentando o preconceito e a truculência de quem tem as armas, vestida ou não com as roupas da legalidade e da proteção aos cidadãos.

Não podemos deixar que este moinho, que tritura a ordem jurídica e a discussão pública dos assuntos coletivos, prossiga seu trabalho sob o estímulo de forças políticas que pretendem se beneficiar desta situação. Se não pelos mais elementares princípios éticos, simplesmente porque refazer as condições de organização, manifestação coletiva e luta por direitos dos grandes contingentes submetidos a todas essas formas de opressão é um dos poucos caminhos que restam para a pacificação de nossa cidade.

Não existe no horizonte próximo uma "solução ótima". Os atores envolvidos não têm uma mesa de negociação já pronta, como vemos em casos de conflitos sindicais, agrários e políticos. As condições de negociação precisam ser criadas por todos, inclusive e especialmente pelos que estão menos submetidos aos efeitos da degradação de nossas instituições democráticas de controle social. Não podemos deixar que a população favelada seja amordaçada a pretexto de evitar os efeitos negativos de manifestações de massa e seu uso pelo narcotráfico. A "razão de Estado", quando usada para justificar o cerceamento dos direitos de cidadania, sempre esconde o arbítrio e a violência, que acabam se espalhando por toda a sociedade.


* Sociólogos e integrantes do Fórum de Interlocução do Ibase.


Artigo publicado em O Globo em 5/04/04

July 7, 2004 | 11:40 PM Comments  0 comments

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Pra Inspirar e Agir

minha alma
(Marcelo Yuka, O Rappa)

a minha alma está armadae apontada para a cara
do sossego (sego)
pois paz sem voz
não é paz é medo (medo)

às vezes eu falo com a vida
às vezes é ela quem diz
qual a paz que eu não quero
conservar
para tentar ser feliz

as grades do condomínio
são para trazer proteção
mas também trazem a dúvida
se não é você que está nessa prisão
me abrace e me dê um beijo
faça um filho comigo
mas não me deixe sentar
na poltrona no dia de domingo
procurando novas drogas
de aluguel nesse vídeo
coagido pela paz
que eu não quero
seguir admitindo

às vezes eu falo com a vida
às vezes é ela quem diz

July 7, 2004 | 10:56 PM Comments  0 comments

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Primeira Vez

Esta é a primeira vez que vou postar uma mensagem aqui, agradeço ao Diogo André por ter me ensinado.
Vai uma letra de música que acho importante:
todo camburão tem um pouco de navio negreiro
(letra: Marcelo Yuka, música: O Rappa)

tudo começou quando a gente conversava
naquela esquina alí
de frente àquela praça
veio os zomens
e nos pararam
documento por favor
então a gente apresentou
mas não paravam
qual é negão? Qual é negão?
o que que tá pegando?
qual é negão? Qual é negão?

é mole de ver
que em qualquer dura
o tempo passa mais lento pro negão
quem segurava com força a chibata
agora usa farda
engatilha a macaca
escolhe sempre o primeiro
negro pra passar na revista
pra passar na revista

todo camburão tem um pouco de navio negreiro
todo camburão tem um pouco de navio negreiro

é mole de ver
que para o negro
mesmo a AIDS possui hierarquia
na África a doença corre solta
e a imprensa mundial
dispensa poucas linhas
comparado, comparado
ao que faz com qualquer
figurinha do cinema
comparado, comparado
ao que faz com qualquer
figurinha do cinema
ou das colunas socias
todo camburão tem um pouco de navio negreiro
todo camburão tem um pouco de navio negreiro

June 29, 2004 | 11:05 PM Comments  2 comments

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